Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

Amedeo Modigliani, esse maldito



Nunca é demais relembrar que eu não sou especialista em arte (ou vinhos, ou telemóveis de 3.ª geração, ou jogadores do Cascalense) mas sei do que gosto. E adoro a arte de Modigliani.

E como nem só de pão vive o homem, porque a carne é fraca (esta semana promoção Continente, entremeada € 2,50/ Kg) mas ainda resta a alma para alimentar, deixo aqui umas linhas sobre esse fabuloso pintor e escultor Italiano. À vossa consideração.


Amedeo Clemente Modigliani (1880-1920) nasceu em Livorno mas foi em França que fez quase toda a sua carreira. A sua vida foi marcada pela doença física (esteve para morrer aos 11 com febre tifóide e pouco depois contraiu uma forma de turberculose que viria anos mais tarde a ser a causa de morte, com apenas 35 anos), pela extravagância e pelo desequilíbrio. Nada de estranho para um artista que afirmava para quem queria ouvir que o único caminho para "a verdadeira criatividade" era através do "desafio e da desordem".

Talvez pela débil saúde, Modigliani era muito chegado à mãe (que o protegia o melhor que conseguia das doenças) mas em 1906, depois de curtas passagens por Roma e Veneza, mudou-se para Paris, onde rapidamente o ávido consumo de absinto e haxixe ajudaram a integrar o jovem artista na cena cultural. Viviam-se por essa altura em Paris tempos únicos para a pintura mundial porquanto nas primeiras décadas do século passado e nas últimas do século XIX ali conviveram, lado a lado para as bandas de Montparnasse e Montmartre, Monet, Gauguin, Van Gogh, Picasso (com quem Modigliani até cultivava uma certa rivalidade), etc.


Claro que Modigliani, leitor atento de Nietschze e Baudelaire, seguiu irrevogavelmente um percurso pessoal e artístico difícil e decadente. Sempre nas zonas sujas da cidade, provocador nato, irresponsável, invariavelmente pobre, adepto do amor rápido, de saúde fraca... "Modi", que pronunciado em Francês soa a "maudit" isto é "maldito", tinha um encontro marcado com uma morte breve... mas até lá a sua vida estava destinada a ser tortuosa.


Modi tinha contudo, um trunfo que viria a tornar a sua curta passagem nesta terra, num marco para a cultura mundial. A forma intensa como vivia a arte. Ele que muito antes de iniciar a sua formação artística, já se via como um pintor. Incapaz de se integrar nas correntes da época, ainda hoje os estudiosos da arte, têm grandes dificuldades em saber exactamente onde estão as suas influências (apesar de ser mais ou menos consensual um grande apreço pela arte Africana).

O seu traço, não obstante, é perfeitamente definidor do que é que pertence a "Modi" e do que pertence ao resto do mundo. A forma como imortaliza os corpos e as faces esguias de mulheres, a sensualidade das poses, a vulnerabilidade do pescoço, é do mais bonito que tenho visto em tela. E com isso me basto. Às vezes aliás, chega-me um quadro de Modi para me esquecer de um evento amargo.

Um dia, depois de começarem a estranhar a ausência de notícias, vizinhos e amigos entraram à força pela casa onde vivia com Jeanne Hébuterne (na Rue de la Chaumière), uma jovem artista com quem Modi viveu um grande amor e de quem pintou alguns dos seus mais célebres retratos. Encontraram Modi na cama em estado febril e delirante, agarrado a Jeanne, grávida de 9 meses. Foi levado para o hospital mas morreria pouco depois.

Modigliani com Picasso e André Salmon, 1916

Teve um funeral enorme e foi enterrado em Père Lachaise esse cemitério mítico onde repousam entre outros Édith Piaff, Jim Morrison, Honoré de Balzac, Oscar Wilde, etc. Apesar de, tal como Vermeer ou Van Gogh (e ao invés de Picasso ou Gustav Klimt), nunca ter chegado a conhecer da popularidade, da importância e do alcance que as suas obras viriam a obter, Modigliani era à altura da sua morte uma figura muito conhecida e estimada na cena Parisiense, sendo mesmo especulável se com mais uns anos a sua carreira não poderia ter atingido outro tipo de sucesso.

No seu túmulo pode ler-se "Atingido pela morte no momento da glória".

Eu sei. Nós sacanas nunca poderíamos sobreviver sem arte.


Retrato de Jeanne

PS: Dois dias depois Jeanne, inconsolável viria a cometer suicídio, completando uma tela de vidas desmesuradamente intensas e antecipadamente breves. A família de Jeanne, contudo, que nunca tolerara o falido Modi, só passados 10 anos viria a permitir que os restos mortais de ambos fossem reunidos. Na campa dela pode ler-se "Companheira devota até ao extremo sacrifício".

PS2: Há alguns filmes sobre Modigliani (o último dos quais de 2004, com Andy Garcia). Devo contudo avisar que estão demasiado Hollywoodescos e com falhas históricas graves. Mas vai daí resultou com o "Código de Da Vinci"...

Domingo, 5 de Julho de 2009

E o prémio "agora sim, posso morrer em paz" vai para

Há cada vez menos Katias Vanessas.

Sábado, 4 de Julho de 2009

Outra vez a chegar a casa às oito da manhã?

O plano era simples e inocente. Jantar com o pessoal amigo na Taberna Ideal (Rua da Esperança, 112 ...em Santos). Comidinha óptima, feita de entradas e pratos da cozinha tradicional Portuguesa (muito em conta e um espaço muito pitoresco mas com apresentação), simpatia das donas da casa.

Como não estava com ninguém do meu núcleo duro de amigos nunca sei muito bem como é que este tipo de noites acabam...Mas agora que tenho 31 já não me preocupo muito em preocupar-me. De Santos fomos, como quem não quer a coisa, marginal fora até Cascais, dois meninos e duas meninas a bordo de um Peugot 205 cabriolet, o qual tinha características de carro do Noddy mas com uma buzina insegura de si própria.

Festa na marina (com tios a saltar com heroes del silencio numa garagem fechada... mas que fauna tão estranha) e saltinho ao Tamariz. Muita confusão, bom ambiente, apesar de um certo toque infantil-juvenil a que me referi a noite toda como "Club Amigos Disney". Meia Lisboa presente, impossível não encontrar caras amigas ... tirando talvez os amigos com quem combinei especificamente encontrar-me lá e que afinal não os vi em lado nenhum. Mulheres lindas, poucas roupas, muito bronze e sobretudo muito bacon à solta que a gripe suína não é para levar a sério. May the good Lord be praised.

Para perceber como é que chego a casa a esta hora pelo segundo dia consecutivo, alcoolizado e rouco teria que somar estas continhas todas. Mas o Rambo não é de fazer contas. Rambo está feito para salvar aldeias e brincar no mato. 

(Agora Rambo vai fazer ó ó e fingir que se esqueceu de pôr despertador).

Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

Bairro Alto & Lux

Simples. Muito simples. Sai-se de casa às 23.00, vai-se até ao Bairro. A noite está quente, as pessoas adoráveis, sempre se encontra mais alguém. E quando já se está a regressar ao carro - porque o Bairro insiste em fechar às 2.00 (que País de visionários...) - o telefone toca. "Olha afinal não vou já para casa ... não me leves a mal...". Eis que vou ter com um grande amigo que me diz - assim de fininho - "Por falar nisso...vou ser pai outra vez, a Pat está de 7 semanas". Tudo isso pede festa, venha quem vier. Tudo isso pede mais um pouco de Pulha. E da esplanada da 24 Julho, derrubados que estavam já vários copos, siga até ao Lux. Que quando o Pulha vem, diz que a festa é rija. E o amanhecer no Luz, em boa verdade se diga, é do mais encantador que há com a matina de cores quentes a bater ao de leve sobre as águas lentas do Tejo. E à saída do Lux, contra todas as probabilidades, sozinha num taxi, uma doce cara amiga (terrivelmente bonita) que logo ali pára a viatura. Rimo-nos os dois como crianças."Bora os dois amanhã à Comporta... ?"...just might be...just might be.

Isto e outros episódios. E números de telemóveis trocados com amigos de infância. E considerações sobre a candidatura do Pedro Santana Lopes a Lisboa. "Não, com o meu voto" disse bem claro a quem me queria levar inscrito. E mensagens a desviar-me para a festa no Teatro da Comuna. E malta que atravessa o Bairro só para trocarmos um abraço na Rua da Barroca número 93. E um grafiti a preto na rua do elevador que desce para os Restauradores a dizer com solenidade, swear to god, "tou-me a cagar pó Michael Jackson" sic.

Se um dia deixar de viver em Lisboa ... vou ter saudades de tudo isto. Lisbon, born and raised. Proudly.

"A vida tem mais imaginação que nós" Schopenhauer


Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

Fizeste o teu último telefonema de telemarketing para esta casa, amiguinho



Vocês sabem aqueles gajos irritantes do telemarketing que ligam para casa das pessoas a impingir coisas ? Pois este ligou para casa do Sr. Tom Mabe, o qual quando atendeu (e começou a gravar a chamada) fingiu ser um detective de polícia a investigar a morte do próprio Tom Mabe e com suspeitas a amontoarem-se relativamente ao envolvimento do gajo do telemarketing. Reparem bem no ar de pânico... hilariante.

Esta é a história de um vídeo com mais de 16 milhões de passagens e que dedico à minha querida amiga Maria que costuma passar por aqui para a sua dose diária de nonsense & outros produtos de marca branca do Sacana, e que ontem, incautamente, me confidenciou que estava com o período o que originou da minha parte sequências de piadas infantis e inconvenientes ("nunca confies num animal que sangra durante dois dias mas não morre"), que apesar de a terem feito rir devido ao choque que a minha falta de nível provoca, eram indignas de uma senhora como ela. Desculpa, Maria. Bem sabes que eu sou um Pulha sem emenda mas que contas feitas adoro ser o palhaço de serviço para uma boa amiga como tu.



PS: Ah... que saudades dos tempos em que eu pegava nas páginas amarelas (para obter um número e um nome verdadeiros) para ligar para casa das pessoas e dar as "boas novas" em como tinham ganho bicicletas, electrodomésticos, etc e que só tinham que se deslocar no dia seguinte à porta da câmara municipal de Lisboa ao meio-dia para recolher o prémio. Muda aos cinco, acaba aos dez. Havia vezes em que tive medo de ter feito uma hérnia de tanto rir...

Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

O sexo e a cidade & a vida real

Talvez não seja muito à macho mas eu adorei o "Sexo e a cidade" (os matulões que me lêem por favor não comecem com provocações para eu não ser forçado a bater no meu peito como gorila alfa, qual Digit do "Gorilas na bruma"). Todas as temporadas, todos os episódios.

Claro que há partes que eu dispensava (até eu que sou a favor de mulheres bem arranjadas, com adereços de moda que façam sorrir as próprias e uma certa disciplina equilibrada na figura (só se vive uma vez e a depressão começa com pequenas coisas), sei que não preciso de conhecer assim tanto de sapatos Jimmy Choo (espero ter escrito bem)). Mas em geral gostei da série porque a primeira coisa que eu valorizo nas séries (e filmes) é o estar bem escrito. E a verdade é que "O sexo e a cidade" está uma série magistralmente escrita, com uma trama muito bem apanhada, cómica e sobretudo realista. Que coloca questões com que todos nos identificamos nalguma medida. Faz-nos até rir de nós próprios pelas caricaturas que desfilam à nossa frente.

Provavelmente todos conhecemos exemplos na vida real de Carries, Mirandas e Samantas. Mas de todas é o caso da Charlotte que eu vejo mais vezes repetir-se à minha frente.

Tenho uma grande amiga (apesar de passarmos largos períodos sem nos mantermos em contacto...normalmente coincidentes com cada um de nós estar numa relação...mas sempre que falamos somos de uma enorme sinceridade e cuidado um para o outro...o mundo é um lugar estranho) de há muitos anos que é uma mulher particularmente bonita e desejável. Loura, alta, magra, com estudos, boas famílias, muita grana, vivências em vários pontos do globo, inteligente e bom coração. E no entanto só escolhe idiotas em termos de homens para ter ao seu lado (incluindo, por um breve período, este que vos escreve, há muitos anos atrás e numa altura de grande sorte para mim (todos os rafeiros têm sorte)...hoje seria impensável). Está bom de ver que o preço de escolher idiotas são lágrimas, humilhações, embaraços. Como explicar às amigas e aos pais que o príncipe encantado merece afinal sentir o peso da gravidade sob a forma de um piano de cauda acidentalmente descaído de um nono andar? "Juro que foi acidente, sr. polícia mas olhe que por acaso até deu um belo Dó quando chegou lá abaixo".

O motivo, na minha opinião e pelo que tenho visto neste e noutros casos, é uma certa tentativa que muitas mulheres têm de ser demasiado exigentes quanto ao homem ideal (aliás, tentativa essa instigada por várias séries, filmes, blogs pink, etc para nem mencionar amigas, mães, cunhadas, colegas de trabalho ...tudo o que é bitch de serviço). Tem que ser mais alto, tem que ganhar mais dinheiro, tem que ter bom sentido de humor, tem que ser um vencedor crónico de concursos de popularidade quanto a pais, amigos & cachorro, tem que ter um bom carro, tem que ser arrumado, tem que ser asseado, tem que ter uma família civilizada e com uma ligação à mãe moderada, não pode ter demasiados sapatos, não pode beber demasiado, não pode ser muito gordo nem Júlio Isidro, tem que ser um leão na cama (e já agora depois do sexo, deve também fazer a cama e deixar tudo arrumado como estava), tem que ser ambicioso na carreira mas não demasiado, tem que ser competitivo com os namorados/maridos das amigas, tem que ter uma inteligência capaz de colocar um foguete na lua só utilizando clips n.º 5, etc. 

E este homem ideal existe ? Claro que existe, meninas. Se comprarem o jogo de computador Sims, podem fazer um gajo assim ao fim de 50 minutos. Ou então se beberem duas garrafas de tinto alentejano cada uma (14% por cento de graduação alcoólica...menos não vai dar), o príncipe ideal não só existe como até é levemente parecido com um homem das cavernas mas no sentido querido, claro (e o mau hálito e patilhas à lavrador até podem ser estranhamente afrodisíacos à hora errada da madrugada).

"Mas oh Pulha, muitos homens também são assim! Demasiado exigentes com as mulheres que querem ver ao seu lado...e depois dão-se mal... e ficam muito mal tratados porque essas são as mulheres mais disputadas no mercado da carne..." É absolutamente verdade. Mas há uma diferença: é que os homens continuam atractivos e sedutores para o sexo oposto durante largos anos e vejo muitas mulheres a perseguir homens que não existem/já arderam durante os melhores anos das suas vidas.

E o que se passa com a Charlotte na série? Bem, como quem viu sabe, a Charlotte é uma rapariga toda giraça que vai de idiota em idiota (qual tarzan de liana em liana) até esbarrar de frente com o príncipe ideal, o Troy, o qual apesar de romanticamente impotente tem muito dinheiro, vem de boas famílias e é apresentável. Claro que a trata mal como à merda (juro que ía dizer "cócó"...só espero que a minha avó não vá ler isto ...ah é verdade, nunca lhe disse que tinha um blog...) e por isso o breve casamento acaba na ruína. Pobre Charlotte, vê o seu sonho desfeito mas - é uma das coisas boas das séries americanas - ainda vai a tempo de ter um final feliz quando o seu destino se cruza com o de um horroroso ogre gordo, um careca que come de boca aberta e tem mais pelos nas costas do que uma cavalariça no chão, mas que voilá a trata como merece (e é um Shrek na cama). E são felizes. E criam uma família. E como diria o Bonga "tenhu uma lágrime no cantu du ólu/ tenhu uma lágrime no cantu du ólu".


Este post não tem uma conclusão científica estilo "eh malta, bora lá procurar os mais feios e dar-lhes programas para Sábado à noite...a fealdade é que é o caminho!". Digo aos meus amigos o mesmo que às minhas amigas: procurem os giros, os estimulantes, os que vos realizem. Mas na dúvida apostem naqueles que vocês achem que vos farão felizes a 10/20 anos (mais é especulativo), que tratam bem já hoje todos os que estão à sua volta e que se sentem verdadeiramente satisfeitos quando acordam ao vosso lado. Aqueles que fazem materialmente sentido, e não aqueles que fazem formalmente sentido. E claro, um bocadinho de sorte e sacrifício da vossa parte.




Ps:

Não parece mesmo que estão a pensar "Olha, lá vai o Pulha" ?

Meet you in Lollapalooza?

Eddie Vedder e Ben Harper no festival de Lollapalooza, Chicago


E se de repente um desconhecido lhe oferecesse um guia para os melhores festivais de música do mundo inteiro? 

Está tudo aqui, minha gente.

Não esquecer que há todo um mundo lá fora ... E que marcar umas férias à volta da música é tão válido como marcar férias à volta da praia. 

Ps: Ando com esta música do Eddie Vedder às voltas dentro de mim.


Terça-feira, 30 de Junho de 2009

Morreu a Pina Bausch

Morreu hoje a Pina Bausch, uma das maiores coreógrafas do ballet moderno e uma das mais importantes influências da dança contemporânea. Tímida mas altamente criativa e original, Bausch veio mais do que uma vez a Portugal (sobretudo nos tempos em que a Gulbenkian ainda tinha companhia de bailado...) e trouxe a companhia por si fundada em 1973, a Tanztheater Wuppertal, a qual é actualmente tida como uma das melhores.

Era uma Alemã cidadã do mundo, com acesso a experiências de culturas diversas, e os seus trabalhos destacavam-se por combinar música, movimento e artes dramáticas. Não percebo muito de ballet mas gostava do estilo por vezes agressivo e não-poucas vezes abstracto. Fugia desesperadamente do convencional, como se visse para o ballet e para a dança coisas totalmente diferentes do até aí experimentado. Tenho infinitas vezes mais pena desta perda do que da do Jacko e da Fawcett. Não que a vida humana nuns casos valha mais ou menos do que outros. Mas são modos diferentes de servir as artes. 

É verdade que não desgosto de mulheres oxigenadas e com mamas grandes a tirar roupas em varões ao som de balelas comerciais ... mas a arte de Pina Bausch era outra coisa e ... seduzia-me. Eu sempre disse que era um bate-chapas sentimental.






Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

Algumas notas sobre Keynes, Macro-Economia, Política Fiscal e Obras Públicas em Portugal

Acredito que o cidadão comum (um grupo no qual me incluo) não é burro e que se tiver a oportunidade de aprender com calma, trabalho, sem preconceitos e apoiado em salutar pedagogia, consegue entrar com mais ou menos facilidade em áreas de complexidade científica e técnica que à partida pareceriam impenetráveis. 

Feita e assimilada essa aprendizagem pode formar a sua convicção e com um pouco de sorte aplicá-la com bons resultados. E quem sabe, a partir daí, parafraseando António Gedeão, o mundo pule e avance. Uma dessas áreas é a macro-economia, que parece um planeta distante para muitos mas que contas feitas é de fundamental importância para perceber o que é que se passa no nosso país, e mesmo, acreditem ou não, na nossa rua. Eu não sou especialista, nem próximo, mas aqui ficam algumas ideias.

1. John Maynard Keynes (1883-1946), considerado pela revista Time um dos 100 homens mais influentes do séc XX, foi um dos mais importantes economistas de todos os tempos. Era um homem invulgarmente inteligente, de pensamento revolucionário cujas ideias ainda hoje perduram e influem na nossa vida quotidiana (apesar de poucos terem esta noção) não obstante muitas terem sido entretanto postas de lado ou mitigadas. A par de economista teve igualmente uma vida pessoal, social, cultural e política extremamente interessante (basta dizer por exemplo que era um homossexual assumido mas que um dia se apaixonou terrivelmente por uma bailarina russa chamada Lydia Lopokova que amou intensamente e com quem se casou) mas agora não nos podemos demorar por esse caminho (quem quiser saber mais, e há muito mais para saber, clique aqui);

2. O cervo do pensamento económico de Keynes baseava-se no princípio simples de que os governos deveriam intervir em determinados momentos da economia designadamente para contrariar recessões (caso presente em Portugal) e depressões, e para prolongar períodos de pleno emprego. Por outras palavras, o modelo capitalista moderno não funciona por si só automaticamente com eficiência absoluta pelo que há que preconizar a intervenção controlada do Estado. Isso fez com que ao longo dos tempos muitos tenham seguido com alegria estas ideias peregrinas de um homem que morreu ainda antes da metade do século passado. Desde Nixon (que terá afirmado "Agora somos todos Keynesianos" ... pudera, a guerra do Vietnam estava recente e alguém tinha que segurar a crise económica e o défice público!), a Obama na sua estratégia económica pós-Bush, passando por - possivelmente sem o saber - José Sócrates, o quase-engenheiro;

3. Para efeitos de intervenção do Estado na economia, dentro da lógica Keynesiana, os governos deveriam entre outras executar dois tipos de medidas: monetárias (hoje com o Euro em vigor estas medidas são impossíveis) e fiscais. E era aqui que eu queria chegar: às reformas fiscais as quais são um instrumento perfeitamente válido dos governos mas que como estamos governados por incompetentes, sem qualquer noção de macro-economia e que interpretam as reformas fiscais apenas no sentido de cobrar mais impostos (o IVA por exemplo vem-me à memória), parecem pouco relevantes para reagir à crise económica. BURROS!;

4. "Mas qual é a sugestão quanto à reforma fiscal"? Bem, eu acho que nós não temos dinheiro para fazer TGVs, auto-estradas, aeroportos (e parece-me que a maior parte destas construções estão mal calculadas na relação custo/vantagem), etc. Mas JÁ QUE TEMOS APARENTEMENTE DINHEIRO PARA GASTAR, DEVERÍAMOS UTILIZAR A MASSA PARA BAIXAR O IRC. As empresas precisam de ser apoiadas. São elas - por muito que custe ao PCP e certas forças de esquerda, que parece que ainda vivem na excitação do pós-25 Abril, um dos legados psicológicos mais penalizadores para o Portugal moderno - que dão emprego, avançam tecnologicamente, criam riqueza. Se o IRC - ao qual todas as empresas em Portugal, tirando as cotadas em bolsa, fogem aumentando artificialmente os custos - estivesse muito mais baixo, a nossa economia real ficaria mais sólida, além de que poderíamos atrair empresas estrangeiras para ter sede cá atraindo divisas estrangeiras. E isto para nem mencionar o facto de que a Banca - essa família de crime organizado - se tem recusado a emprestar dinheiro, prejudicando gravemente empresas saudáveis e com potencial mas sem forma de fazer crescer o seu negócio ... ora, baixando-se o IRC poder-se-íam dinamizar estas empresas.

Em conclusão: Eu não estou, enquanto cidadão, contra a ideia de investimentos públicos para reanimar a economia. Estou contra estes investimentos em concreto propostos por este governo. E acredito sobretudo que deveríamos optimizar a nossa política fiscal, baixando entre outros o IRC. 

O problema é que para isto seria necessária visão. E ... há putos na 4.ª classe com mais visão do que o presente (futuro?) governo Português.

Afinal os video-jogos ainda vão fazer muito pelos obesos.




Quando se olha ao espelho substitui a expressão "Quem tem cú, tem medo" pela mais singela "Tenho um cú que mete medo"? A sua barriga permite-lhe sentar nos melhores lugares dos transportes públicos? Quer atrair outros/outras sacanas para quartos sem ar condicionado sem medos que o desodorizante possa ser insuficiente? Nada tema. O Sacana vem em auxílio dos seus.

Antes a malta ficava em casa a engordar porque os video-jogos eram demasiado bons para tirar o rabo do sofá. Agora a malta continua em casa mas tem que afastar os candeeiros da sala. É que andam por aí jogos que são demasiado bons para manter o rabo no sofá (e há por aí rabos maiores do que sofás ... We'll always have Bairrada).

Refiro-me expressamente à consola Wii da Nintendo, que se arrisca seriamente a ser o meu próximo electrodoméstico. Recomendo vivamente. Junta adultos e crianças, amigos e amigas. E para os casalinhos lá em casa também é boa onda. E bom exercício. E bons preliminares. Baseando-nos nos elementos de prova recolhidos, podemos afirmar que a partir de agora é da cama para a sala, e da sala para a cama. Vai parecer a peregrinação dos gnus no Parque Natural do Seringueti.

Let the games begin, God damn it.



Ps: Saiba mais aqui.

Domingo, 28 de Junho de 2009

O desporto enquanto montra de virtudes para salvar o mundo




Para mim os grandes campeões têm que ser grandes homens/grandes mulheres. Têm que ser campeões de dentro para fora, e não o inverso. Têm que ter humildade, moralidade, nobreza. Claro que Senna foi um dos melhores de sempre, e o mesmo vale para Ronaldos, Valentinos Rossi, Romários, Mourinhos. Mas eu prefiro os Maldini (nem jogo quis de despedida! um dos deuses dos relvados do futebol mundial...), os Kelly Slater (6 vezes campeão do mundo de surf) e os Sampras.

Segui desde o início a carreira do Pete Sampras. Órfão de pai, descendente de imigrantes gregos nos EUA, Pete era aquele miúdo simples trabalhador incansável que lutava para se tornar num jogador de ténis profissional. Os seus passing-shots, a sua frieza e colocação da bola, a sua esquerda assassina, combinada com uma direita demolidora, e claro - como todos os jogadores de eleição quando estão em apuros para fechar o jogo de serviço - o seu serviço de excelência fizeram de pistol Pete um jogador completo, reinante durante longos anos numa das modalidades individuais mais competitivas e populares do planeta, o ténis.

Eu vi em directo quando o habitualmente reservado, inexpressivo e introvertido Pete Sampras começou a chorar em pleno court central de Flushing Meadows (Open USA) num jogo contra o rival e amigo Jim Courier. Apesar de ser número um do mundo e de estar em vantagem nessa partida, Pete ao fim de 4 horas de jogo (as partidas no open USA podem ser excepcionalmente prolongadas e desgastantes) não resistiu e começou a chorar como uma criança. O seu treinador de sempre estava a morrer com cancro por essas horas no hospital e um campeão nunca esquece donde vem e quem lhe deu a mão até à imortalidade. As lágrimas caiam-lhe enquanto servia, enquanto se sentava no banco, enquanto corria. No final, ganhou o jogo. Nada mudara. O número um fizera o seu trabalho.

Retirou-se como o homem que tinha ganho mais títulos de grand slam (os mais importantes) da história e hoje passa os dias a brincar com os filhos. Sempre discreto, nunca ninguém o vê a mandar bocas na imprensa ou sequer a aparecer em courts para relembrar como é "boss". Recentemente, outro grande campeão ainda em actividade, Roger Federer igualou o quase impossível record de Sampras - 14 títulos de Grand Slam - e está em vias de o ultrapassar. Muitos teriam inveja. Mas não o Pete. O Pete é um campeão de verdade. E não é só pelo número de títulos que já ganhou. Tem a atitude certa.

"“To put up the numbers I did, I knew it was going to take someone who’s not just a great player but also willing to give up some of his life, sort of eat, breathe and live the sport,” Sampras said. “Roger is willing to sacrifice and be a great champion.”

Of course Sampras would have liked for his record reign to outlive him.

Absolutely,” he said. “But I can honestly say I don’t have an issue with Roger passing me. He gets the job done and does it with class.

He added, “I won 14, which is 14 more than I ever thought I’d win.

Excerto de uma entrevista ao NYT que pode ser melhor aprofundada aqui. 


E o prémio "o quê? outro prémio?" vai para...


"They give out awards for everything. Adolf Hitler, Best Dictator"

Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

Com uma semente eu tratava da árvore.

"I don't know what's going on with us,
and I can't tell you why you should waste
a leap of faith on the likes of me...
but, damn, you smell
good -- like home.
And you make excellent coffee.
That's got to count
for something, right?
Call me (...)
hank moody
."
da excelente série "Californication".

Eu sou daqueles idiotas que quando vai a um casamento consegue efectivamente parar de pensar por momentos em gajas e comida e desejar o bem àquelas duas pessoas que vão casar. Olho brevemente para os pais e irmãos - poucos sabem quão  longo foi o caminho para aqui chegar - e torço pelos meus amigos. Se forem amigos muito muito próximos, normalmente até escrevo uma carta pessoal a dizer o quanto significam para mim (de que vale partir deste mundo com coisas bonitas por dizer?) e como vou ficar sempre ao seu lado e ao lado dos seus até que as forças me abandonem (no mesmo envelope da carta junto o cheque e digo com ar sacana "Toma é para ti. Não fico aborrecido se quiseres rasgar a carta mas pelo menos tira primeiro o dinheiro").

É que eu acredito em famílias. Acho que se uma pessoa deixar este mundo com muita realização profissional, económica e cultural - o que respeito e valorizo tremendamente - é ainda assim uma vida desperdiçada se durante a sua travessia por esta terra não tiver havido descendência, uma mulher/homem que se tenha sentido amada/o com constância e consistência, familiares de um e de outro que se defenderam e potenciaram sob essa árvore chamada família. Exactamente nesta ordem.

"Então e o sexo, Pulha?". Sexo é fundamental, cara vozinha que vem de dentro do meu cérebro. Intimidade então é a essência. Mas agora falo do projecto comum. Aquele que envolve sair da cama, ajudar os filhos a estudar, levar os velhos (mesmo os que não são os "nossos" velhos) ao médico, poupar para as férias do conjunto, dar uma orientação e punir culpados. Servir os outros antes de se servir a si próprio. 

É um pouco por isto que nos últimos tempos tenho dito a alguns dos que me são próximos que mais depressa me vejo pai do que marido (nada de pessoal contra as senhoras, pois bem sei que existem muitas dignas desse nome e relativamente às quais eu é que seria o sortudo, e jamais o contrário, se tivesse o direito de me aproximar de uma vida estável com uma). É que só posso controlar a paternidade e a vida de um sacana passa depressa demais.

Por isso, se só tiver tempo para ser pai ou para encontrar uma alma amável (literalmente) - e eu tudo faria para só me casar uma vez - Deus me dê a oportunidade de ter a primeira. Adoptando ? Naturalmente mas sem compromisso ? em que esquema, não sei. Mas gostava de ter a oportunidade. Com uma semente eu tratava da árvore.




PS: Por favor, não me encham a caixa de comentários com rebuçados como "não fiques assim, a mulher certa vai aparecer", porque não é isso que está aqui em questão nem sequer em dúvida. Nem tão-pouco estou deprimido, ou invejoso, ou uma balela qualquer que precipitadamente queiram interpretar. A minha vida nesta altura até está muito bem e recomenda-se. Acredito em família. Só isso. E vou tentar lá chegar, com esposa (desejavelmente) ou sem. Sem dramas. Mas com objectivos.

E o prémio "Não nos temos visto muito desde então" vai para ...

Ela - (com voz querida) E pensar que estivemos mais de 30 anos sem nos conhecermos...
Eu - (em tom de atrasado mental que tem a mesma sensibilidade que uma grade de cerveja) E pensar que foram os melhores anos da minha vida ...


Eu sei. Nunca vou dizer o que as pessoas querem ouvir.


PS- Tive uma ex-namorada que me dizia. "Eu rio-me com as tuas piadas mas o que me irrita é que mesmo que mais ninguém ria, tu vais-te rir de certeza. Não precisas que os outros riam contigo... És mesmo doido". Seria a isto que ela se estava a referir?

Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

And another one bytes to dust ...

1. É muito comum a malta sobre-valorizar os que morrem, maxime por comparação ao período em que viveram. Gostaria de dizer que, apesar de ter um grande respeito por cada um dos seres humanos (a começar pelas crianças em África as quais morrem uma a cada 4 minutos) que povoam esta Terra, não nutria - antes como depois de morrer - grande simpatia pelo Michael Jackson, assim como não nutria pelo nosso Vasco Granja, e assim como, quando um dia o Dr. Mário Soares, por exemplo, partir do mundo dos vivos, não vou sentir grandemente a sua perda (ainda que reconheça grande valor e coragem na sua luta ao comunismo no pós-25 Abril), por mais que os media cor-de-rosa se esforcem no dramatismo. Nasce-se, vive-se, morre-se. Antes eles que os meus. Amen.

2. Aliás, pegando nos media cor-de-rosa gostaria de dizer que a malta que compra estas revistas e vê estes programas é a mesma malta que instiga a actividade de paparazzi que perscruta por sua vez a vida privada daqueles que supostamente são reverenciados. E depois têm muita pena quando o pessoal a quem não deram 5 minutos de sossego nesta vida finalmente morre. Foi assim com o Lady Di, Freddie Mercury, Michael Jackson, Michael Hutchense, etc. Se isto não é paradigmático de um mundo louco, desequilibrado e sanguinário, vocacionado para consumo rápido de pessoas e bens, sem pausas para a reflexão, não sei o que será. Penso que todos deveriam pensar muito bem a quem dão dinheiro a ganhar.

3. Jacko era, a meu ver, um músico sem especial talento (a maior parte dos seus temas eram escritos por outros), exímio dançarino e com instintos de boa pessoa num meio relativamente ao qual sempre parecera francamente desajustado. É normal que uma criança que já trabalhava na indústria de entretenimento aos 5 anos e que era uma mega-estrela aos 20 nunca tivesse tido hipóteses de seguir um curso de vida equilibrado. A verdade é que a indústria da música, com o apoio dos supostos fans, criou um monstro. Extravagante, despesista, patologicamente assustado, possivelmente pedófilo, sem rumo ou casa certa. Jacko foi sempre o freak de serviço no seu próprio freak show. Não vejo grande beleza nisso, antes ou depois do dia de hoje.

4. Mas não há nada de positivo a retirar da morte de Jackson ? Há. Olhem pela vossa saúde cardíaca. Controlem o stress, façam exercício, comam legumes, e comam-se uns aos outros àquela hora que ninguém desconfia. "Ah mas não encontro a pessoa certa" ? Please...dêem uma hipótese a vocês próprios.