Nunca é demais relembrar que eu não sou especialista em arte (ou vinhos, ou telemóveis de 3.ª geração, ou jogadores do Cascalense) mas sei do que gosto. E adoro a arte de Modigliani.
E como nem só de pão vive o homem, porque a carne é fraca (esta semana promoção Continente, entremeada € 2,50/ Kg) mas ainda resta a alma para alimentar, deixo aqui umas linhas sobre esse fabuloso pintor e escultor Italiano. À vossa consideração.
Amedeo Clemente Modigliani (1880-1920) nasceu em Livorno mas foi em França que fez quase toda a sua carreira. A sua vida foi marcada pela doença física (esteve para morrer aos 11 com febre tifóide e pouco depois contraiu uma forma de turberculose que viria anos mais tarde a ser a causa de morte, com apenas 35 anos), pela extravagância e pelo desequilíbrio. Nada de estranho para um artista que afirmava para quem queria ouvir que o único caminho para "a verdadeira criatividade" era através do "desafio e da desordem".
Talvez pela débil saúde, Modigliani era muito chegado à mãe (que o protegia o melhor que conseguia das doenças) mas em 1906, depois de curtas passagens por Roma e Veneza, mudou-se para Paris, onde rapidamente o ávido consumo de absinto e haxixe ajudaram a integrar o jovem artista na cena cultural. Viviam-se por essa altura em Paris tempos únicos para a pintura mundial porquanto nas primeiras décadas do século passado e nas últimas do século XIX ali conviveram, lado a lado para as bandas de Montparnasse e Montmartre, Monet, Gauguin, Van Gogh, Picasso (com quem Modigliani até cultivava uma certa rivalidade), etc.
Claro que Modigliani, leitor atento de Nietschze e Baudelaire, seguiu irrevogavelmente um percurso pessoal e artístico difícil e decadente. Sempre nas zonas sujas da cidade, provocador nato, irresponsável, invariavelmente pobre, adepto do amor rápido, de saúde fraca... "Modi", que pronunciado em Francês soa a "maudit" isto é "maldito", tinha um encontro marcado com uma morte breve... mas até lá a sua vida estava destinada a ser tortuosa.
Modi tinha contudo, um trunfo que viria a tornar a sua curta passagem nesta terra, num marco para a cultura mundial. A forma intensa como vivia a arte. Ele que muito antes de iniciar a sua formação artística, já se via como um pintor. Incapaz de se integrar nas correntes da época, ainda hoje os estudiosos da arte, têm grandes dificuldades em saber exactamente onde estão as suas influências (apesar de ser mais ou menos consensual um grande apreço pela arte Africana).
O seu traço, não obstante, é perfeitamente definidor do que é que pertence a "Modi" e do que pertence ao resto do mundo. A forma como imortaliza os corpos e as faces esguias de mulheres, a sensualidade das poses, a vulnerabilidade do pescoço, é do mais bonito que tenho visto em tela. E com isso me basto. Às vezes aliás, chega-me um quadro de Modi para me esquecer de um evento amargo.
Um dia, depois de começarem a estranhar a ausência de notícias, vizinhos e amigos entraram à força pela casa onde vivia com Jeanne Hébuterne (na Rue de la Chaumière), uma jovem artista com quem Modi viveu um grande amor e de quem pintou alguns dos seus mais célebres retratos. Encontraram Modi na cama em estado febril e delirante, agarrado a Jeanne, grávida de 9 meses. Foi levado para o hospital mas morreria pouco depois.
Teve um funeral enorme e foi enterrado em Père Lachaise esse cemitério mítico onde repousam entre outros Édith Piaff, Jim Morrison, Honoré de Balzac, Oscar Wilde, etc. Apesar de, tal como Vermeer ou Van Gogh (e ao invés de Picasso ou Gustav Klimt), nunca ter chegado a conhecer da popularidade, da importância e do alcance que as suas obras viriam a obter, Modigliani era à altura da sua morte uma figura muito conhecida e estimada na cena Parisiense, sendo mesmo especulável se com mais uns anos a sua carreira não poderia ter atingido outro tipo de sucesso.
No seu túmulo pode ler-se "Atingido pela morte no momento da glória".
Eu sei. Nós sacanas nunca poderíamos sobreviver sem arte.
PS: Dois dias depois Jeanne, inconsolável viria a cometer suicídio, completando uma tela de vidas desmesuradamente intensas e antecipadamente breves. A família de Jeanne, contudo, que nunca tolerara o falido Modi, só passados 10 anos viria a permitir que os restos mortais de ambos fossem reunidos. Na campa dela pode ler-se "Companheira devota até ao extremo sacrifício".
PS2: Há alguns filmes sobre Modigliani (o último dos quais de 2004, com Andy Garcia). Devo contudo avisar que estão demasiado Hollywoodescos e com falhas históricas graves. Mas vai daí resultou com o "Código de Da Vinci"...



















